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Luísa Castel-Branco

Indiferente

Luísa Castel-Branco, 16.09.08
 
  

Acordou cedo e deixou-se ficar queda, imóvel, com os olhos fixos no tecto. O tiquetaque do relógio na mesa-de-cabeceira, o som miudinho que subia da rua, uma porta que bate, passos na calçada, um ou outro carro, é domingo e a cidade espreguiça-se ainda.

Agora um cão que late e alguém que abre a persiana com estrondo.

A rua é velha, as casas são velhas, a cidade é velha. Mas ela não.

E contudo, o seu corpo está mais gasto que todos os séculos das muralhas de Lisboa, que as águas batidas do Tejo no cais.

Mais desgastado que as pedras da rua lisas de tanto uso, que as fachadas dos prédios com a tinta a cair.

O que fazer com este domingo, pensou para si mesma?
O que fazer com os dias que lhe restavam, porque cada manhã era mais penoso o levantar do leito, o arrastar-se pela casa, e as escadas, agora, só as utilizava para ir ao hospital e pouco mais.

Se ao menos... Mas para quê pensar nisso, do que servia, do que lhe valia a pena de si mesma? Deitada na cama sem se mover, a respirar devagarinho, fechou os olhos com força e partiu dali para fora, como se tivesse aberto a janela e voado, sem o seu corpo se mexer. E lá estava ela, de novo rodeada pelos perfumes conhecidos, pelas cores e sabores da sua infância, da sua juventude.

A mãe sentada no banco da cozinha, o ovo de madeira dentro das meias já tão passajadas, o pai que adormeceu na soleira da porta.

Ah! Como era feliz e não o sabia! Se ela tivesse sonhado o que a vida lhe ia colocar no colo, teria saboreado tudo de outra forma, ou então, pura e simplesmente ter-se-ia deixado por lá, sem outras ambições. O vento aumentou subitamente, e as cortinas rodopiaram uma e outra vez e ela que já não estava ali, mas bem longe. Nem calor nem frio. Nem noite nem dia. Nem viva nem morta.

 

in Destak 16 | 09 | 2008

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