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Luísa Castel-Branco

O grande desafio

Luísa Castel-Branco, 27.11.08

 

A tudo nos habituamos.
Com o avançar da vida, descobrimos com espanto que efectivamente a tudo nos habituamos.
A questão reside em como o fazemos.
Podemos pura e simplesmente desistir. Deixar cair os braços e transformarmo-nos numa pálida imagem do que já fomos, ficar quedos e imóveis à espera que a vida escorra.
Ou então, a revolta instala-se dentro da alma e a amargura toma conta de cada parte mais íntima do nosso ser, e exalamos essa mágoa sangrenta por onde passamos e a todos com quem nos cruzamos.
Mas, se os deuses assim o decidirem, ou se por um acaso dos mistérios do Além, dentro de nós e sem o nosso controlo, a uma força imbatível nos levar até à tona da água, nos impedir de morrer por dentro, então o nosso instinto de sobrevivência irá transportar-nos pela vida, não sem deixar marcas, nódoas negras que não se vêem, rasgões invisíveis mas tão profundos como se por dentro, nem um pedaço de nós sobrevivesse.
Mas na verdade, adaptamo-nos a tudo na vida.
Talvez seja essa memória ancestral, dos tempos em que o ser humano só podia mesmo viver se adaptado ao que o rodeava.
Há muitos anos, pensava que após a adolescência entravamos na idade adulta e tudo estava terminado, calmo, definitivo.
Ah! Quanto me enganava!
Todos os dias um pouco de mim desaparece, e uma vez mais me adapto como plasticina ao que são as 24 horas de todos os dias.
Chegada aqui, percebo agora que a grande aventura não é o que conseguimos conquistar, o que possuímos.
Pelo contrário. A contabilidade dos afectos, dos amores e desamores, das tristezas e das alegrias, são como cada pequeno pedaço do nosso corpo.
A luta é não baixar os braços, não desistir dos nossos princípios, não abdicar de nada do que é realmente importante para nós.
E perceber que o mais natural é que à nossa volta a solidão se instale.
A sociedade gosta das pessoas simples, sem devaneios de alma, sem grandes angústias existências e de preferência plenas de tristezas.
Mas habituamo-nos a tudo.
Até à mais profunda solidão, que efectivamente não é estar sozinho mas sim, não ter ninguém que nos entenda de verdade.
 
 

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