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Luísa Castel-Branco

A planta

Luísa Castel-Branco, 20.01.09
 

Tinha colocado lá fora a planta. Não gostava daquela planta e deixou-a ali para morrer. O Verão acabou. Vieram as chuvas e o frio e nunca mais se lembrou.

Num domingo, esse dia mais longo da semana, sentada sem se mover, os olhos perdidos na rua, reparou então na planta. Que assombro! Tinha crescido, forte, bonita. Frondosa.

Deixou-se ficar para ali a olhar para aquele milagre, como se o crescimento de uma planta fosse algo verdadeiramente importante. Mais tarde, quem sabia do assunto explicou-lhe que a planta normalmente morreria mas se tal não acontecesse, adaptava-se e transformava-se numa planta de exterior.

Pensou para si mesma que era igual ao que acontecia aos seres humanos. Houve um tempo em que pensara que iria morrer, ou então simplesmente definhar devagarinho até desaparecer para sempre.

Mas não. Habituara-se ao silêncio total da casa, à ausência de palavras, gestos ou o que quer que fosse.

A sua vida era um deserto. Árido. Sem vida.

E contudo, tal como a planta que não morrera, os dias escorriam, os meses passavam, e ela ainda ali estava. Pouco a pouco, pensou para si mesma que se esquecera já que um dia fora amada. Que um dia a sua cama tinha tido alguém, o seu braço esticado tocava no corpo dele, quente, quente. Não era verdade, não, o seu corpo e a sua alma reclamavam-no. Mas ela era aquela planta. E tal como a planta, também ela se limitava a estar e nada mais.

 
 
in Destak 20 | 01 | 2009

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