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Luísa Castel-Branco

Num piscar de olhos

Luísa Castel-Branco, 10.02.09
 
  

Os dias escorriam como a chuva, desaguavam na noite sem que nada houvesse a registar. Como se este Inverno tivesse vindo feito à sua medida, à medida da sua tristeza, só para a embalar, só para lhe dar desculpas para não sair de casa, não se mover do sofá a olhar para a televisão.

Não que visse uma única notícia, um filme. Como se o ecrã estivesse negro, e mesmo quando esforçava os olhos, deparava-se com pessoas a abrir e a fechar a boca, até as imagens se desfocarem todas e transformarem-se num borrão.

A casa húmida estava às escuras. Sim, os dias confundiam-se com as noites, o céu pesado, carregado, o cinzento que vestia a cidade e se entrava pela porta adentro, pelas janelas e envolvia os lençóis, as almofadas na sala e a roupa que trazia vestida. O telefone não tocava. Eram dias de silêncio total.

No princípio até que houvera muitas vozes amigas a darem-lhe força, a mostrarem-lhe que a compreendiam, ser despedida assim, sem aviso, isto está tudo louco. Mas isso fora no início, que agora, ninguém queria falar com ela ou vê-la. «Pareces que trazes a morte às costas, rapariga!

Vais ver que arranjas trabalho num piscar de olhos.» Mas com a passagem, foram-se afastando dela como se tivesse doença contagiosa. E, afinal, quem a poderia querer como companhia? Envelhecera de repente, as palavras gastara-as nas entrevistas para hipotéticos empregos, nos telefonemas em que tentava explicar a sua mais-valia. Mas não valia nada.

Era apenas mais um mulher sozinha, naquele apartamento às escuras, sem razão alguma para abrir a porta da rua e sair, sem ninguém a esperá-la do lado de lá do passeio.

 

 in Destak 10 | 02 | 2009

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