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Luísa Castel-Branco

De mim para mim

Luísa Castel-Branco, 03.03.09

 

Em Setembro vinham os ventos.
Primeiro de mansinho, suave e mesmo delicadamente. As folhas das árvores iniciavam uma dança, devagarinho, abraçando-se umas nas outras.
Pouco a pouco, os ventos ganhavam força e os movimentos da terra aumentavam cada vez mais, mais e mais.
Os canaviais começavam a zumbir, como um silvo de serpente, daquelas que vinham da lagoa e cirandavam pelas pedras, e quando ouviam algum som enrolavam-se como um novelo de lã.
Os dias de Setembro caminhavam e com eles as cousas ganhavam outras cores e texturas.
Por meados do mês já a mãe natureza estava prenha de gemidos, murmúrios que se iam transformando em gritos.
E as folhagens enlouqueciam, as árvores dobravam-se e retorciam-se como se fossem quebrar-se a qualquer momento.
Era então que nos deitávamos nas pedras cobertas de musgo, o corpo a sentir a terra e os olhos bem abertos e fixos no céu recortado pelas copas das árvores que jogavam connosco às escondidas, ora desciam até quase nos lamberem o corpo, ora se levantavam no céu erguendo-se como gigantes pináculos que quase tocavam o tecto do mundo.
Era então que os ventos transtornavam o emudecimento da terra, esse silêncio prenhe de milhares de sons, dos pássaros aos répteis, das abelhas aos carros lá longe a fazerem-se ao caminho de Lisboa.
De repente, e nos ali deitados na pedra, havia mar por todos os lados!
Ondas gigantes que nos podiam engolir a qualquer momento, ondas que vinham e iam e vinham novamente e o som era mágico, inexplicável, de uma beleza que trazia as lágrimas aos olhos.
Deitados com o frio a furar os casacos de malha, os nossos ossos coziam-se com as pedras procurando o quente da terra.
E hipnotizados pelo mar que de repente surgia acima de nós, bastava fechar os olhos e ouviu os ventos e não havia árvores, não haviam as casas lá em baixo, nem nós, miúdos assustados e entusiasmados e agarrados às pedras, ai que a água nos leva, não havia nada a não ser aquele mar que era apenas som e tudo o mais que quiséssemos sonhar, ali com os olhos fechados, ali presos à nossa infância, a porta aberta para o resto da vida e nós que não queremos entrar.
Ah! O vento nunca mais soou como nesses tempos tão limpos e virgens.
Talvez só naquele dia em que olhei lá para fora, porque um mar de vento me puxava, e puxava.
Talvez, mas estou velha demais. Esqueci os segredos que um dia as Deuses me depositaram no canto do ouvido, como quem deixa cair uma gota de mel virgem.
Agora é tarde. Agora as portas dos mistérios fecharam-se definitivamente para mim.
 

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