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Luísa Castel-Branco

Em silêncio

Luísa Castel-Branco, 14.07.09
  

Não me toques! Esta cama tem o tamanho de um oceano e ainda assim não é grande suficiente para nós os dois! Não fales comigo! As tuas palavras perderam o sentido, perderam direito a ecoarem nesta casa e na verdade, não as ouço, só vejo a tua boca mover-se, nada mais. Não olhes para mim! Faz aquilo que fazias antes, entrando e saindo sem dares conta que eu existia, e eu tão parva, preocupada contigo, que problemas terias, que não os partilhavas com a tua família, coitado!

Simplesmente limita-te a estar aqui sem que eu te sinta por perto. Se não queres partir, e eu não tenho para onde ir, então respeita pelo menos o meu esforço diário perante os nossos filhos, esta representação de vida a que sou obrigada. Como tudo muda de repente! Nunca achei possível que ao invés de te esperar com preocupação até sentir os teus passos, a chave na porta: «Então, amor, como foi o teu dia? E tu a falares das chatices do trabalho e eu a aquecer o jantar», eu rezasse para que dormisses mais uma noite fora. É como se o tamanho imenso do meu amor fosse proporcional ao ódio que te tenho. Sei que comentas com os amigos que isto passa, que são ciúmes que tudo vai voltar a ser igual. Não podes estar mais errado!

Mesmo que me saiba sozinha nesta cidade que não é minha, e no fundo do meu coração sei que se ainda estivéssemos na nossa terra as únicas palavras que ouviria eram conselhos de silêncio e obediência, que os homens são assim, nunca mais serei quem fui. Tu mataste-me o coração, arrancaste-me a alma, rasgaste o meu corpo e as memórias boas esvaíram-se.

Agora, nesta casa que um dia foi lar, há dois desconhecidos e duas crianças que olham para nós. E só este olhar me segura!

in Destak 14 | 07 | 2009

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