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Luísa Castel-Branco

Dizem que é o progresso.

Luísa Castel-Branco, 20.09.09

 

As noites ficam cada vez mais frias e húmidas e o sol, mesmo quando surge quente por momentos, é já uma quentura envergonhada, como um adeus de alguém que acena no cais com vergonha da saudade estampada no rosto.
A natureza é a mãe de todos os ensinamentos. Tudo o que é realmente essencial, primordial à nossa vida está espalhado pela terra, nos seus frutos e principalmente nas forças que comandam o universo.
Quando os homens se afastaram da terra, imergindo solitários e perdidos no cimento dos prédios, rodeados por baldios e carros e estradas, foi nesse momento que perdeu essa ligação milenária, plena de magia, de sapiência e respostas para aquilo que nos atormenta até ao último dia.
Nesta corrida sem pausas ou prazeres, horas perdidas em transportes, fechados escritórios em trabalhos que na maior parte das vezes apenas são uma fonte de rendimento, e apenas isso, sem satisfação ou gratificação, hoje recolhemos a casa, onde quer que ela seja, cansados, exaustos e privados de sonhos.
E porque nos afastamos da mãe-terra, perdemos a ligação fundamental ao que é real, imutável e simultaneamente tão imprevisível.
Com a chegada do Outono, a terra recebe e dá, numa constância que nos assegura que o amanhã existe.
Mesmo os grandes desastres naturais são para as gentes do campo, e sempre foram, cousas que podem acontecer sem aviso ou explicação.
Rodeados por cimento, asfalto e relógios de ponto, quem tem tempo ou intento para abraçar um por do sol, para cheirar a terra húmida nas primeiras horas da madrugada, para observar o fascínio da mudança de cada estação?
Um dia, um dia chegara em que concluiremos como é absurdo o nosso viver diário, esta dependência tamanha de tantos objectos inventados para nos facilitar a vida, e que mais não fazem que nos prenderem, amarrarem, condicionarem.
Um dia destes, ali à beira rio vi, várias pessoas correrem ao som da música de minúsculos aparelhos que lhes gritavam ao ouvido.
Estavam felizes. Trauteavam canções e caminhavam em passos mais ou menos rápidos.
Felizes.
Já ninguém quer ouvir as palavras do rio que bate ali nas pedras, da dança das arvores ou dos risos que chegam de longe.
Inventamos outras realidades e deixamos para trás o que deveria ser a primeira de todas as lições.
 
 
 

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