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Luísa Castel-Branco

Tão só

Luísa Castel-Branco, 17.11.09
17 | 11 | 09
 
Vestia a solidão que a rodeava com panos imaginários. Vaporosos, translúcidos ou floridos como a memória que retinha da chita da sua infância.

Era uma forma como outra qualquer de se refugiar da vida, de percorrer os dias cumprindo todos os rituais que os outros esperavam.

Havia nela um sorriso triste que lhe moldava o rosto em permanência, como se fosse a maquilhagem que não usava.

Os tecidos envolviam-na e as suas diferentes texturas davam-lhe que pensar, tacteando-os sem se mexer, fixando-se em cada pormenor que não existia.

Muitas vezes, quando os colegas de trabalho falavam com ela, e ela respondia correctamente a todas as questões, mal sabiam eles que os via e ouvia através de cornucópias, flores miudinhas ou simples riscas que bordejavam os panos como se fossem fiapos.

Ninguém quer verdadeiramente saber o que nos vai na alma, quando todo o nosso corpo grita por ajuda. Não. As pessoas queriam conversas de circunstância, era compreensível, todos tinham os seus problemas.

E após tantos anos sozinha, a vida toda que não se cumprira, os sonhos que nunca passaram disso mesmo, ela inventara os tecidos que envolviam o seu dia-a-dia, em vez de encher a casa de gatos abandonados ou recolher-se nas igrejas, como aquelas mulheres vergadas que ali limpavam os corações e a maldade.

Quando soube que ia ser reformada, ao abrigo de uma qualquer lei, nem isso a surpreendeu.

Afinal, se tudo era apenas um compasso de espera, entre uma solidão acompanhada e o meter a chave na porta de casa e encontrar-se só, de que adiantava?

Foi então que passou a vestir as ruas da sua pequena cidade com os mesmos panos com que cobria a sua solidão.

 

 

in Destak 17 | 11 | 09

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