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Luísa Castel-Branco

O QUE EU NÃO SEI

Luísa Castel-Branco, 20.11.09

 

 

 

 

 

 
Vivo rodeada por espelhos mágicos, como aqueles que existiam na Feira Popular quando eu era miúda, e cada um mostrava a nossa imagem de formas distorcidas e todas diferentes.
Espelhos e portas.
Portas que aparecem de repente, no meio da sala de reunião onde estou, onde devo estar atenta às palavras dos outros.
Contudo, elas surgem do nada. Uma porta, sem parede alguma, seguida de outra e outra.
Por vezes transformam-se num labirinto, um dos meus medos mais profundos.
Medo tão grande e estúpido que em tempos trabalhei com um membro do governo que tinha na sua sala, bem por detrás da secretaria e respectiva cadeira, um enorme quadro com o desenho de um labirinto.
Nunca consegui arranjar forças para explicar ao senhor porque não conseguia olha-lo nos olhos.
Nos meus pesadelos os labirintos são algo de constante e antes mesmo de me perder e desistir de encontra a saída, sufoco em pânico.
Que estupidez!
Como as portas e os espelhos que me surgem em todo o lado e durante o sono.
E por vezes, não resisto mais e atravesso-as. E do outro lado estão as personagens que aguardam que eu lhes dê voz, numa fila longa até perder de vista.
Estendem-me as mãos e eu digo que sim, prometo que um dia, mas recuo e volto a sair.
Há uma porta que sei não poder transpor.
É como se tivesse a certeza que por detrás dela está a desistência total da vida, o baixar os braços para sempre e nunca mais sonhar.
Sei exactamente qual é essa porta e conto os passos que irei dar até lá chegar.
É contra esse momento que luto todos os dias, numa tentativa tão forte de que a realidade não me destrua.
Nada em mim é normal. Vivo só e contudo movo-me acompanhada por dezenas de vozes sem rosto que exigem tudo de mim.

 

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