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Luísa Castel-Branco

Para si

Luísa Castel-Branco, 15.08.07
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Olá Luisa, eu gosto muito de a ouvir gosto mesmo muito, e por isso estou aqui a escrever lhe, eu descobri o seu blog por acaso, ou por ironia do destino não sei, mas é o seguinte eu passei esta ultima noite como muitas outras mal e a chorar porque eu acho "acho não, não tenho mesmo" sorte nenhuma, dormi mal e pus me a pé de manha porque hoje não tenho os miúdos muito raro mas foram dormir ao pai "sou divorciada há 6 anos e meio" mas gosto muito de uma pessoa sou correspondida mas não posso ter uma vida normal, mas continuando acordei e liguei a Tv. no canal 2 e vi uma entrevista sua e falaram no seu mail e eu rapidamente fui a ao computador que tinha acabado de ligar e escrevi o seu mail e qual foi o meu espanto a sua ultima escrita falava de sorte que somos nós que a fazemos será, eu sou uma pessoa pessimista muito pessimista para conseguir alguma coisa consigo com muito sofrimento e depois perco logo a seguir e neste momento da minha vida ando muito triste sem vontade de viver, já me passou pela cabeça matar me ouve ate uma noite que passei acordada na varanda com vontade de me atirar mas quando eu estava mesmo a fazer lembrei me dos meus filhos que estavam a dormir e que naquela altura só me tinham a mim porque o pai na altura "ou seja durante 1 ano não quis saber deles foi preciso ir varias vezes a tribunal para o obrigar a ver o filhos" hoje pensaria duas vezes se o faria, mas continuando lembrei me dos meus filhos e pensei se eu não morro e fico numa cadeiras de rodas o que vai ser pode ser palermice mas veio isso a minha mente não o fiz claro os meus filhos estão a cima de tudo, mas acerca do seu tema será mesmo que basta ser optimista não precisar de fazer nada que as coisas acontece, eu não acredito a minha filha diz me para eu ser optimista e gostar primeiro muito de mim "ela só tem 12 anos" gostar de mim ela deve ter razão, e ser optimista também mas a vida foi tão madrasta comigo que eu já não consigo ser optimista, mas tenho uma coisa e tive sempre que a Luisa disse na Tv. que tinha agora medo, eu tive sempre medo, por isso eu q acho que sou pessimista tenho medo ate tenho medo hoje em dia de viver porque não consigo viver aceitado tudo que a vida me dá.
 
 
Dos mais de 180 comentários que recebi, aos dois post publicados, o seu ficou-me na cabeça, preso entre os múltiplos afazeres diários, sem que o tivesse conseguido esquecer.
Ah! As imagens da dor prendem-se em nós, e mesmo o tempo passado, são como vírus que se alimentam do nosso sangue e das nossas lágrimas.
Sei da sua varanda, da sua janela, das suas lágrimas, da enorme atracção do abismo, do salto no escuro e poder dizer adeus a tudo, absolutamente tudo, mas principalmente à dor maior que não tem nome, é um conjunto de muitas dores, como se dentro de nós se fossem acumulando, dia após dia, as desilusões, os desamores, a culpa, sim a culpa, porque mesmo quando a vida nos bate como se fossemos um saco de boxe, sabemos sempre que há alguém que está pior que nós, que sofre ainda mais.
Sei a atracção do precipício, do salto que é muito mais um voo para o infinito, um voo em direcção às estrelas e aos anjos e arcanjos do que a realidade do corpo estatelado no passeio lá em baixo.
Sei o que é acordar com medo. Há tantas formas de medo e possivelmente ele é uma das maiores forças do Universo, muito para além do sexo ou do poder.
O medo faz-nos correr, correr sem parar. E não sabemos que é medo, chamamos-lhe outros nomes: ambição; gosto pela aventura, desafio, eu sei lá.
Quando na verdade, apenas tentamos não nos afogar nas horas que o dia tem.
Sei o que é olhar para o lado e pensar: mas se eu não faço mal a ninguém, mas se eu me esforço tanto, porque é que a vida é tão madrasta?
E sei o que o único amor infinito, imortal, maior do que a nossa própria vida, é o que sentimos pelos nossos filhos.
E também a mim foram eles que me tiraram, sem saberem, dessa janela, dessa varanda e da vontade que vem das entranhas de abrir os braços e saltar, saltar e nunca mais ter que olhar-me no espelho.
Sei que devemos gostar de nós e ser optimistas, e que por nós passam todos os dias gentes com maiores e mais terríveis sofrimentos.
Mas nunca irá esquecer estas lágrimas, minha amiga.
Nunca.
E mesmo um dia, quando a vida lhe sorrir, não saberá sorrir com a vida e todos a acusaram de ingratidão e muito mais.
Mas a verdade, é que a janela aberta, os pés na borda da varanda e o salto que não foi, ficam dentro de nós como se tivesse sido.
Apenas os filhos nos podem dar o futuro. E se tivermos coragem de não lhes roubar a vida, a alegria, de não os matarmos de tanto os amar, então um dia cada coisa estará no local preciso, mesmo que para nós não faça sentido.
Porque nunca ninguém nos disse como ia ser difícil.
Porque nos encheram a cabeça e a almofada de príncipes encantados e estórias de felizes para sempre.
E nós para aqui ficamos, sem perceber onde foi que falhámos.
Há momentos na nossa existência que a solidão nos pesa como um casaco molhado.
Há outros em que já não temos lágrimas nem sequer animo para nos levantarmos da cama.
Noites em branco. Fins-de-semana em branco sem o som dos risos dos nossos filhos, e o mundo desaparece de vez.
Quando me diz que ama e é correspondida mas...não acredite.
Só vimos o que queremos ver. E quando o desespero é tão grandes que não encontramos razão para continuar por aqui, temos tendência para aceitar migalhas.
Não precisa acreditar nestas minhas palavras.
É muito mais fácil reduzir-me aquela que aparece na televisão e portanto conseguiu alcançar o que os outros não têm.
Não, não acredite nas minhas palavras mas se no seu intimo se aperceber de que sei do que fala, então aceite a minha experiência.
As palavras da sua filha, os pequenos mimos que eles nos dão, olha-los no quarto escuro enquanto dormem, garanto-lhe que isto basta.
Não lhe digo que vai ser feliz. Mas digo-lhe que vai existir como um ser inteiro.
Tão inteiro e poderoso, que é capaz de escrever o que me escreveu.
Quando sentir a dor apertar dentro de si, olhe para a varanda.
E, tal como aconteceu antes, pense neles.
Pense que não pediram para nascer mas que ao nascerem lhe deram o infinito na palma da sua mão.
Nada, absolutamente nada mais interessa.
Escreva sempre, mas sempre que precisar.
 
Um abraço grande,
 
Luísa
 
 
 
 

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