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Luísa Castel-Branco

Desculpem-me!

Luísa Castel-Branco, 24.08.07
 
A porta das urgências abre e fecha, fecha e abre num vaivém constante. Tenho os olhos fixos na porta de vidro como se esperasse, não sei, que desaparecesse e com ela o banco de pedra onde estou uma vez mais sentada, o hospital, tudo.
O mesmo banco, o mesmo hospital, a mesma dor a apertar-me o coração. Um ano depois, dois anos depois, há três foi a minha vez mas noutro hospital, noutras portas que abriam com certeza da mesma forma mas que eu não conseguia ver.
A vida é isto eu sei, desculpem-me. Desculpem-me estar para aqui a desabafar, quando tantos têm escrito sobre a tristeza dos meus textos.
Mas tenho medo de hospitais. Tenho medo daquela porta que abre e fecha e não sei se foi a ultima vez que vi quem ali entrou e já não saiu hoje.
A canícula aperta. O banco de pedra ferve. Ao meu lado um homem faz palavras cruzadas. Uma criança incrivelmente gorda pergunta-lhe:”Como te chamas?” e ele nem levanta os olhos do jornal. Do outro lado, a mãe, incrivelmente gorda;”Vanessa, vem para aqui!”. Podia ser outro sítio qualquer, porque há gentes por todo o lado, gente a conversar, a fumar, crianças que correm:”Vanessa eu já te avisei!” mas de repente chega uma ambulância, ou alguém chora alto no átrio do hospital.
Será isto o limbo? Serão as portas de vidro que não param nunca a primeira paragem para o lado de lá?
As lágrimas caiem-me pelo rosto. Eu sei que é a vida. Eu sei que é normal a partir de uma certa idade temos que nos habituar à ideia de que as pessoas partem, eu sei tudo isso, mas as lágrimas são teimosas e correm-me pelo rosto.
A última vez que me sentei neste banco de pedra não voltei a ver quem passou as portas.
Ah! Esta fase da vida em que os outros precisam de nós, em que é chegado o momento de dar a mão e apoiar quem parte, mas onde está a força? Onde está a Fé? Quem me toma a mim nos braços e me tapa os olhos e os ouvidos e diz:”Já passou!” e o hospital desaparece, a dor no meu peito também, e a morte, este viver diário a assistir à alma a apartar-se do corpo, termina?
Sou egoísta. Eu sei, desculpem-me mas estou cansada.
Os dias são uma sequência de portas de vidro que se fecham e abrem sem parar, sem dar sossego e eu apenas vislumbro rostos em sofrimento, e não sei como aprender a dizer adeus.
“Eu vou sentar-me aqui ao pé da Dona Luísa” diz uma senhora aconchegando-se no banco de pedra, entre mim e o homem das palavras cruzadas, e antes que eu tenha tempo para limpar as lágrimas”Gosto tanto de ver a sua filha! E a senhora quando volta à televisão? O meu marido também teve um enfarte porque fuma como a senhora e...”
Colo um sorriso estúpido na cara, e deixo de a ouvir, recolho-me dentro de mim e sorrio como uma boneca de plástico.
Queria ser transparente, mas não sou. Mentira, sou. Sou apenas a senhora da televisão que tem uma filha na televisão.
E ali ao meu lado, sem o écran pelo meio, ela nem repara nas minhas lágrimas.
As pessoas são simpáticas comigo. Não fiz nada que merecesse o carinho que me demonstram:”A Dona Luísa também não deixou de fumar, pois não?”
Ah! As malditas portas de vidro e eu que quero fugir e não tenho para onde!
 
 

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