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Luísa Castel-Branco

Um dia de cada vez 03

Luísa Castel-Branco, 05.05.10

 Em tempos tinham caminhado pela cidade de mãos dadas, sem vergonhas, sem pudor. Ele roubava-lhe beijos rápidos, mas que tinham o tamanho do Mundo. Em tempos tinham rido de coisas pequenas, eram dias plenos de satisfação e encantamento. Um encantamento que se propagava às coisas que os rodeavam, os objectos e as outras pessoas diziam: aqueles dois são felizes. Em tempos o tempo não chegava para se amarem. As obrigações dos dias eram espaços roubados ao tempo que só a eles pertencia. Depois, quando veio o primeiro filho, foi o espanto que partilharam a dois que os mais marcaria. Vê-lo crescer todos os dias e todos os dias descobrir algo de maravilhoso. E de repente os dias soltaram-se, os anos voaram, outros filhos vieram, outros desafios e, quando deram por eles, já só tinham as memórias saudosas, tristes, embaciadas, dessa paixão que um dia fora só deles. Agora viviam um dia de cada vez, dias cheios de turbulência, problemas e desgastes. Dias em que, cada um para seu lado, ainda relembrava quem tinham sido há tanto, tanto tempo. Mas era isto a vida, não era? A realidade pesava-lhes sobre os ombros e já não havia mais noites à janela a contar as estrelas e a olhar com espanto os telhados da cidade.

 

In Destak 4.4.10

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