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Luísa Castel-Branco

Que sei eu?

Luísa Castel-Branco, 26.08.07
Olá Luísa. Vi seu blog e gostei muito. Posso saber qual a sua religião? Acredita em Deus? E na vida depois da morte?
Obrigado.
Ass: Carlos Ribeiro
 
 
O nascer do dia, visto da janela da minha cozinha, é um espectáculo de tal forma soberbo que corta a respiração. O azul começa a aclarar, e depois vira lenta e suavemente uma tonalidade de rosa que se vai espalhando, lambendo as muralhas do Castelo, da Igreja de Santa Engrácia, descendo sobre o casario de Lisboa até se misturar com o verde das árvores.
O rio parece um espelho mágico. Pela manhã as brumas vestem as águas e quando as cores se misturam com a névoa, é como se um reino mágico tivesse aberto a porta e nos convidasse a entrar.
Os pássaros começam a sua dança, num chilrear que vai aumentando de intensidade. E pouco a pouco a Cidade revela-se, como que tirando o xaile com que se cobriu de noite para mil juras de amor.
O leitor Carlos Ribeiro deixou-me a pergunta que aqui transcrevo.
E ao olhar para o nascer do dia, pensei para mim mesma que esta era a resposta.
Só Deus pode ter criado tamanha beleza! Tamanhas belezas espalhadas por todo o lado, fora de nós, dentro de nós.
Como se chama esse Ente Supremo? Deus? Alá? Buda? Ou o velho sentado no jardim, que sorri a olhar os pássaros e as crianças e retorna a casa sem que a solidão, a velhice ou a longa espera da morte o transformem num ser amargo e perdido?
Mas será que realmente importante?
Se comprarmos as religiões, o que as une é muito mais do que as separa.
Todas tentam incutir no ser humano as noções fundamentais: A distinção entre o Bem e o Mal; o respeito pela integridade do outro; amar o próximo.
Sim, amar.
Tudo o resto, tudo o que são actos de extremismo, não têm cabimento em nenhuma religião.
Mas, olhar o nascer do sol sobre Lisboa, o sorriso da minha neta e os seus porquês, olhar tanta coisa que é inexplicável a não ser pelo que não tem explicação, tudo isso me leva a acreditar num Deus, que é superior aos Homens, mas que é Pai e olha para nós com o mesmo sentimento com que nós olhamos os nossos filhos. Às vezes com orgulho, outras com desapontamento.
Claro que dito isto, fica tudo por explicar.
Tenho milhares de perguntas sem resposta possível. Porque há tanta gente a sofrer sem ter feito nada? Porque há tantos com tanto e muitos mais com tão pouco?
Que lotaria celestial determinou que eu nascesse aqui e não nos confins de África ou numa terra de monções, aguardando um furacão?
Perguntas e mais perguntas que aferem a minha falta de Fé.
A minha incompreensão com o viver dos outros que pela confissão lavam os seus pecados e depois voltam, nos dias normais de expediente, a serem as criaturas com mais certezas e maior crueldade.
Por isso o meu Deus é meu. Vejo-o neste nascer do sol, entro numa Igreja quando preciso de estar só, e falo com Ele a qualquer momento.
Mas sei que Ele existe. Já o vislumbrei em tantos momentos!
Quando chegar a minha vez de atravessar o rio para o outro lado, e entrar no outro mundo, gostaria de me sentar com Ele e perder-me a fazer-lhe perguntas!
Por agora, limito-me a acreditar que existe uma profunda diferença entre o Bem e o Mal, que é muito mais fácil seguir o caminho da não exigência connosco e com os nossos actos.
Não sei como serei julgada, mas todos os dias me julgo a mim mesma pelo que falhei e pelo que não fiz ou não disse.
E entretanto, vou olhando Lisboa, o Rio, o verde do Jardim da Estrela, o riso das crianças, perdendo nos livros e deixando palavras perdidas em folhas brancas.

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