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Luísa Castel-Branco

"PARA TI, DO FUNDO DO MEU CORAÇÃO"

Luísa Castel-Branco, 31.03.11

E consegui! Este é o texto que queria partilhar convosco. É a introdução do meu ultimo livro "Para ti, do fundo do coração".O titulo é uma contradição com o post anterior, mas quem ler o texto vai perceber que estas "desculpas" são de outro teor.

 

                                                          Não pedirei  mais desculpas

 

Há muitos anos, tinha eu então três filhos bem pequenos, recordo-o como se fosse hoje, estava um dia em casa de familiares e de repente sai da sala e escondi-me no único sítio possível, a casa de banho.

Sentei-me, retirei da carteira um bloco que sempre me acompanhava e escrevi. Sobre o quê? Nada de importância, um olhar ou um gesto de alguém que tinha visto na rua, não sei.

Sei sim que toda a minha vida foi assim. Esta urgência da escrita que não se destinava a ninguém, que nunca seria lida mas nada disso importava, eu tinha que passar para o papel o que me ia na alma.

Foi assim a vida inteira. De noite, durante muitos anos, quando finalmente a casa estava em silêncio e os meus filhos dormiam, levantava-me e ia para a máquina de escrever, que os computadores vieram muitos anos depois.

Ao longo da vida deitei fora esses papéis, bocados de toalhas de restaurantes, não interessava o quê, apenas satisfazer aquela urgência.

Ao longo da minha vida, vejo-o agora claramente, sempre pedi desculpa por ser diferente, sempre tentei desesperada e pateticamente que gostassem de mim, toda a gente, e principalmente aqueles que me eram mais próximos.

Tentei também ser aquilo que era suposto, uma menina bem comportada, uma senhora cumpridora das suas obrigações sociais.

Falhei em todos esses objectivos. E fui andando pela vida, com a culpa nas costas e um sorriso nos lábios.

Nem o facto de a morte me ter lambido o corpo, me fez parar esta permanente demanda da aceitação, da compreensão por esta que sou.

Contudo, este livro marca uma importante viragem no meu percurso de vida.

Porquê agora?

Não sei, ou talvez saiba apenas que de repetente, um repente de 56 anos, de muitas lágrimas, risos, muitas desilusões, de repente algo dentro de mim quebrou como um vaso que cai no chão sem que ninguém, a não ser alma penada lhe tivesse tocado.

E chegada aqui, digo pela primeira vez que nunca mais pedirei desculpas de ser quem sou. De ser diferente. De não conseguir seguir os passos dos outros sem parar constantemente para me questionar sobre tudo, absolutamente tudo.

Quem me quiser amar, naquilo que o amor tem de lato, da amizade a tudo o mais, que me aceite como sou. Quem me ler que veja nestes textos o que lhe vier à alma.

Não existe aqui um fio condutor. São olhares dispersos. São pedaços de mim. São pedaços de vidas que roubei, uma mulher sentada no café com a tristeza estampada no rosto, os velhos no jardim a passearem de mão dada, enfim, milhares de pequenas coisas sem importância que para mim perfazem a vida.

 

Dedico este livro ao meu neto Simão, sabendo que quando ele o ler há muito que não estarei por cá.

Espero do fundo do meu coração que ele tenha recebido o mesmo que dei à sua mãe e aos seus tios: permissão para questionar tudo, para acreditar que podemos voar, mesmo que nos digam que não.

Aquilo que a minha filha lhe vai responder, isso, é um assunto privado entre os dois.

Tenho dentro de mim a certeza absoluta, que enquanto estiver lúcida continuarei assim. Diferente, estranha, e finalmente, sem mais pedir desculpas de ser quem sou.

 

 Novembro 2010

 

 

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