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Luísa Castel-Branco

As minhas personagens fugiram e eu para aqui fiquei

Luísa Castel-Branco, 06.04.11

Está um vento forte mas quente. Sai para o jardim e fui regar as flores e o cheiro da terra molhada, juntamente com o vento e aquele perfume a quentura banharam-me os sentidos.

Desde que vim viver para aqui e cada vez mais raramente ligo a musica. É quase uma ofensa porque o cantar dos pássaros é tão grande e tão alto que qualquer outra melodia parece desnecessária.

Vivo numa bolha. Não sei nunca o dia da semana ou do mês, e é com espanto que ligo o computador e vejo quanto tempo passou.

Esta reclusão  sabe-me bem. Sem vozes humanas, sem qualquer espécie de ruído, é fácil flutuar.

Contudo, os tres meses que por razões de saude fui obrigada a passar em casa roubaram-me a estabilidade que tanto demorei a conseguir.

Coisas da vida. Nada de importante, nada de grave mas o resultado foi um buraco que tenho cá dentro e não consigo preencher.

Claro que me sobra os magnificos tons de verde, os meus passaros e as minhas cadelas, mas a escrita está bloqueada.

Não sou daquele tipo de escritores que se sentam em frente à folha branca e ali ficam até escreverem. Nem consigo disciplinar-me para a uma hora certa, ou durante horas certas estar em frente ao computador.

O meu editor diz me que cada um tem a sua forma diferente de viver a escrita e a minha é assaz diferente.

Mas quando se inicia esta nova fase da vida aos 50 anos, aprendemos a respeitar a ordem das coisas, por mais estranha que ela seja.

Escrevo dentro da minha cabeça muito antes de chegar ao papel. Tenho que estar ocupada para que as personagens me visitem, e não pensem que isto é uma forma de expressão, porque se passa assim mesmo. Sou visitada durante a noite, enquanto durmo e quando acordo tenho bem fresco na memória coisas que aconteceram e que ainda não escrevi. Depois durante o dia tenho que me ocupar. Ocupar as mãos, o corpo, não em conversas com outros porque isso afugenta as minhas personagens. Não a lidar com os problemas do dia a dia, não nesta fase.

É por isso que é tão complicado este nascimento do livro. A trama está lá mas não é o momento de ir para o computador.

E contudo, quem pode fugir dos problemas do dia a dia? Conjuga-los com esta evasão é impossível.

Quando  finalmente tudo se conjuga, os longos dialogos na miinha cabeça, os sonhos , noite após noite e a visualização de locais ou momentos que nunca vivi, é então chegado o momento de ir para o computador e entrar num outro mundo, numa realidade paralela que passa a ser muito mais verdadeira do que esta onde vivo.

Infelizmente, neste momento as minhas personagens fugiram. Tenho mais de cem paginas escritas do novo romance e é agora que decidem desaparecer!

Deram-se mal com a clausura forçada e o medo, sim, o medo, não vale a pena fingir.

Espero-as em desassossego e sei que assim não voltam.

Vão aparecer sorrateiramente quando eu menos esperar.

Até lá, até a escrita neste blog é difícil.

Mistérios sobre mistérios. É exactamente por isso que escrever é um algo de tão fantástico e se torna insuportável viver sem essa parte de mim.

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