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Luísa Castel-Branco

A Terra do Nunca

Luísa Castel-Branco, 30.08.07
    Tenho uma lista enorme das pessoas com quem estou em falta. Falta de uma palavra, de um carinho, da demonstração de que penso nelas.
Os dias correm como se não tivessem mais 24 horas, ou então sou eu que me perco nos minutos e quando reapareço já a noite desce sobre a cidade.
Deito-me e levanto-me a pensar no que tenho que fazer, no verdadeiramente urgente, mas depois são as pequenas coisas que se prendem umas nas outras como os fios de uma meada e não sobra espaço para nada.
A gestão do nosso tempo é também uma arte. Eu sei bem que o meu mal é escapulir-me para lugar nenhum, para aquela “terra do nunca” onde me aconchego e me sinto segura, ousada e sem medos, onde a realidade não penetra.
Deixo-me ficar por lá, ainda que aqui esteja. Posso estar rodeada de gente, posso mesmo parecer participar nas conversas, mas na verdade, em segredo, fujo para a “terra do nunca” e permaneço lá, a revisitar as minhas recordações ou a inventar novos mundos.
Outras vezes, estou a meio de uma tarefa, e evaporo-me sem que ninguém dê por isso. O corpo fica cá, mas o meu espírito e a minha alma e o meu coração, todos de mãos dadas, fogem, correm sem parar até encontrarem esse local onde o silêncio está repleto de sons amigos, onde nada me obriga a representar o papel que me distribuíram, nesta longa performance que é a vida real.
Eu sei que é infantil. E inútil seguramente. Mas é lá que vou buscar as cores para pintar os dias, as imagens que não existem senão numa realidade paralela que é muito mais a minha do que esta que aqui está.
Não é sonhar. Não sei explicar, é algo de diferente. É como se este local secreto escondido dentro de mim fosse o ultimo refugio de tudo e de todos e principalmente, tenho que ser verdadeira, de mim mesma.
Isto tudo porque depois me falta o tempo para as coisas da vida.
Mas necessito desta fuga como do ar que respiro. É lá que estão as personagens do meu livro, agora que me fugiram da minha cabeça e não consigo que os dedos corram as teclas no computador.
É lá que estou eu a brincar com os meus filhos quando eram pequenos.
É lá que está aquela que fui e que acreditava que bastava fechar os olhos e o mundo virava o sonho que sonhava.
Mas volto sempre.
E tenho que vos agradecer a todos, aos participantes desta realidade cibernauta que eu desconhecia.
Desde lado de cá da realidade, vocês são a companhia mais querida e esperada a cada dia, e ligar o computador e procurar as vossas palavras, os vossos comentários, os pedaços de vida que aqui deixam, tornou-se um dos mais doces momentos dos meus dias.
Prometo que vos levo comigo até à “terra do nunca”. Quiçá cada um de vós tem também uma e eu não sei.

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