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Luísa Castel-Branco

A dor maior

Luísa Castel-Branco, 25.01.12
Quando a vida nos parece pesar demais sobre os ombros, penso no pior momento da minha vida. Seria de esperar que para quem já teve um AVC, perdeu consciência, memorias, e ficou com sequelas para sempre, o medo da morte fosse a minha pior recordação. Mas não.

Teria o meu filho mais velho cinco anos, talvez seis, quando desci à rua acompanhada por familiares. Parámos no café e disse-lhes que ia à loja do outro lado da rua: tomem conta dele. E saí. A rua é estreita e pequena. Não sei porque me virei, será que ouvi os gritos? Mas quando o fiz vi o carro avançar e o meu filho no meio da rua. Corri e tentei colocar-me à frente, ou agarrá-lo, mas não cheguei a tempo e o carro, um Alfa Romeu desportivo, passou-lhe por cima, e o meu filho desapareceu.

Recordo cada pormenor desse dia, como se fosse hoje. Era Inverno. Estava frio. Ele tinha um casaco grosso comprido. O carro era vermelho. As pessoas gritavam e eu sabia que o faziam porque via os rostos aflitos, as bocas abertas mas nem um som chegava a mim. Nada. O mundo tinha sido engolido por um buraco enorme e nos meus ouvidos só o bater descompassado do meu sangue.

O condutor, tão jovem, saiu do carro a chorar e as pessoas tentavam olhar para baixo, ver o corpo. Aquele automóvel era tão incrivelmente baixo. Quanto tempo demorou? Não sei. Segundos, seguramente.

Foi então que o meu filho saiu rastejando por de baixo do carro, como se fosse um gato. Sofrera apenas um pequeníssimo golpe que nem sequer viria a ser cosido no hospital. Agarrei-o e percebi que continuava a não ouvir o que me diziam, nem mesmo ele.

Poucas horas depois ele já brincava com os irmãos. Eu em contrapartida, fiquei num estado tal que não conseguia sequer mexer um músculo. Quando a realidade parece ser difícil demais, volto àquela rua, àquele momento e aprendo uma vez mais o que é a maior dor do mundo.

 

in Destak 23 | 01 | 2012

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