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Luísa Castel-Branco

Ir à praia

Luísa Castel-Branco, 17.05.12

Chega-se à praia e ela desapareceu. O areal foi comido pelas ondas gigantes da maré alta que batem no paredão. Mas não o fazem com violência, é mais uma canção cadenciada. Os meus amigos pescadores esperam, calmamente sentados nas pedras altas, que a maré desça. A mesma calma com que olham horas a fio para a linha que mal se vê esticada, até que a cana abane, sinal de que o peixe mordeu o isco.

E passado pouco tempo a maré começa a descer, como se as águas fossem puxadas para longe por uma força desconhecida. Quem vem à praia nos dias frios, não nos quentes, são pessoas totalmente diferentes. Um homem de fato completo e gravata caminha no areal. Dobrou as calças só um bocadinho e pisa a areia direito como se fosse na calçada. Casais com cães, mulheres sozinhas, jovens sozinhos. O areal convida ao silêncio, ao pensamento. Há uma calma enorme naquele caminhar rodeado pela música da natureza, um vento ligeiro que bate no rosto, e nós com o olhar perdido.

Penso quem serão estas pessoas? E invento-lhes vidas, como quem escreve na cabeça uma história. Tento dar finais felizes a estas histórias. Mas o homem do fato e gravata passou por mim e tinha uma tristeza tão grande nos olhos! Ah! Apetecia-me pará-lo e conversar com ele… Mas limito as minhas conversas aos pescadores que me en-sinam a fazer iscos e coçam a cabeça afirmando que o mar já não é o que era. Mas já nada é o que era…Fujo da praia nos dias de calor, nos dias dos corpos deitados como frangos a assar. Fujo das multidões porque me revejo nos meus companheiros solitários do areal, às oito da manhã, quando a neblina ainda obriga a fechar a camisola.

In Destak 15.5.12