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Luísa Castel-Branco

Núvens no meu café com leite

Luísa Castel-Branco, 08.09.07
 
 
Visto a vida de musica e sons e cores e perfumes e odores.
Mesmo quando estou por cá, uma boa parte de mim, a maior parte do que realmente sou, anda perdida por locais desconhecidos ou então dou comigo no corpo da criança que fui, deitada na terra a olhar a copa das árvores e o céu recortado, ou escondida por de baixo dos lençóis aguardando que o medo passe.
Por isto tudo, nunca me senti normal, o que quer que isso seja. Ou pelo menos igual aos outros e principalmente às outras que isto de ser fêmea tem regras próprias e rígidas. Sempre soubemos ao longo da vida o que era esperado de nós e alguma pagamos o preço da revolta, do dizer não um e outra e outra vez.
Talvez, não, ia arranjar uma desculpa fácil ou uma explicação plausível para algo que não o é, mas dizia eu que este meu estado de dupla personalidade, de ser duas em uma, vem de longe.
Fui fadada com o nome de Maria Luísa. E nunca ninguém assim me chamou, exceptuando o meu Pai quando se zangava comigo, ou quando eu o desiludia, não sei, vive poucos anos com ele e depois, desistiu de ficar por cá aos 51 anos, deixando-me a mim com tudo para lhe dizer e anos de dolorosa e dispendiosa psicanálise . Onde ia eu? Ah! Na tal Luísa , que nunca o foi até ao dia em que começou a trabalhar. Ainda hoje ninguém me trata assim, mas antes por um diminutivo que não tem nada a ver com o nome, e que segundo a minha Mãe sempre, era o nome duma heroína numa história de amor que ela leu quando estava grávida de mim.
Duvido muito. Nem mesmo os livros do Corin Telado ”, creio que era assim que se chamavam, tinham capas com desenhos melosos e historias melosas, e faziam as delicias das Senhoras, criadas e adolescentes que os liam às escondidas, com um medo enorme de sermos apanhadas num tal crime, e os ditos livros hoje serviriam para ensinar Catequese, mas naquela altura, quando eu me deitava na Pedra do Feitiço a olhar a copa das árvores e a sonhar, eram a coisa mais romântica do mundo.
Voltando ao nada, nunca dei por este nome. Quando alguém me chama Luísa é porque é trabalho. A única excepção são os meus sobrinhos do coração, os muitos e muitos amigos dos meus filhos que aninhei dentro de mim e hoje, homens e mulheres, alguns já casados, vivem quentinhos dentro do meu coração.
Portanto, existe a Luísa que não sou eu e a outra, cujo nome, tenho muita pena mas a vergonha impossibilita-me de vos dizer qual, é um nome estúpido mas sou eu.
Porque vim aqui parar nesta conversa suave convosco? Não sei.
Mas os dias estão difíceis e fujo constantemente para lado nenhum, e quando dou por mim, aqui quieta ou em qualquer outro lado, estou a brincar à cabra-cega; mamã dá licença? Quantos passos? Dois à bailarina...dois à caranguejo...
Ah! A saudade é que me veste a mim!
Saudade dos sonhos que tive um dia, e os perdi na Pedra do Feitiço, onde à noite contávamos as estrelas e sonhávamos o que seriamos quando fossemos mulheres e pudéssemos arranjar as sobrancelhas e calçar meias de vidro!

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