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Luísa Castel-Branco

Sem titulo. Sem nada.

Luísa Castel-Branco, 13.09.07
Queria que esta noite tivesse 365 dias,
Tenho medo de adormecer porque amanhã vou ter que acordar e contar os minutos um a um, até entrar a porta daquele quarto do hospital e ver ceifar a vida a alguém, que vai continuar vivo.
Como se diz a um ser humano que tem menos de seis meses de vida e que até ao momento do seu último suspiro a aguarda um sofrimento atroz?
Como vou olhar o seu rosto? Que palavras idiotas e sem sentido posso eu dizer perante o inevitável?
“Mas com 75 anos é óbvio que já viveu a vida e não é normal os familiares não estarem preparados.”
Ouvi isto hoje de alguém e pensei para mim mesma se o amor tem limite de validade como um iogurte, um prato esquecido no frigorifico, um casaco velho perdido no fundo do baú,
Não, não é assim! É horrível e dói e dói tanto que eu não queria que o dia de amanhã chegasse porque pior do que ver a sombra da morte pousar nos ombros de alguém, é dizer-lhe os dias que pode esperar voltar a ver o céu estrelado, o cheiro à chuva ou tão-somente tocar ao de leve nos objectos que a rodeiam e são afinal o resumo de toda uma vida.
Não devia ser assim, digo para mim mesma, e revolto-me com a realidade, com a mortalidade ou antes, com o facto de não nos ser permitido partir no nosso leito, com um sorriso nos lábios enquanto sonhamos com campos dourados de trigo e o vento a lamber-nos o cabelo e quiçá, os nossos filhos de mãos dadas.
Não sei.
Cada um deveria poder partir assim, envolto nas suas melhores memórias e sem sofrimento.
Nem revolta. Porque quando amanhã as palavras saírem da boca do bom doutor; quimioterapia, e mais isto e aquilo, só poso imaginar a revolta de quem viveu lutando uma vida inteira e vai partir a lutar.
Se a morte é a única coisa segura na nossa vida, devíamos poder escolher como deixamos este tempo passado neste universo e partimos para o outro, seja lá ele o que for.
O ponteiro do relógio continua a mover-se. Tic-tac. Tic- tac.
A noite escorre e a minha cobardia vai-me tolhendo o corpo cada vez mais.
Não devia ser assim.
 
 
 
 
 
 

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