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Luísa Castel-Branco

É Tudo Mentira!

Luísa Castel-Branco, 02.10.07

Quando eu era mais pequenina, acreditava que as estrelas me ouviam, quando eu espreitava pela janela e olhava para a noite escura. Falava com elas de mansinho, devagar e baixinho para que ninguém me pudesse ouvir, e tinha a certeza de que elas, a brilharem lá em cima, percebiam tudo o que eu dizia.

Mas agora, que já tenho dez anos, não acredito nas estrelas. Se elas fossem boazinhas, se elas me ouvissem de verdade, eu não precisava de estar aqui escondida por debaixo dos cobertores, a cantar uma música dentro da minha cabeça para ver se o medo foge.

Também já não acredito em fadas, nem anjos-da-guarda como me ensinou a professora na escola.

É tudo mentira. Se eles existissem, e as estrelas fossem minhas amigas eu não estava aqui. Mas estou.

E todas as noites fico agachada no meu quarto, com medo de ouvir os passos a chegarem à porta. Fico a tremer só de pensar nisso e não quero dormir porque posso não ouvir os sapatos dele e só acordar quando ele mete as mãos dentro dos meus lençóis. À minha Mãe não posso dizer nada porque ela está sempre a dizer para eu a largar, ela está sempre cansada e não fala porque também tem medo dele. Mas se as estrelas não me ouvem, as fadas e os anjos-da-guarda não existem, então a quem hei-de eu pedir ajuda?

Os adultos são todos mentirosos. Cheiram a álcool ou a suor e quando têm um sorriso na cara é porque vão fazer-me alguma coisa. Só a professora Alice é diferente. Só ela me faz festas na cabeça, dá-me chocolates às vezes e diz todos os dias a mesma coisa: «pobre menina.» Devia ser esse o meu nome.

in Destak 2.10.07

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